
Crónicas ATTAC na Rádio Universitário do Minho (97.5 Mz)
quinzenalmente às Sextas-Feiras, às 9.00, 19.00 e 02.00, depois das notícias
Do futebol à politica passando pelo nacionalismo bacoco
Quantos minutos de silêncio seriam precisos...
Manual de instruções precisa-se
blog das crónicas da ATTAC.braga
"UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL!"
A ATTAC (Associação por uma Taxação das Transacções Financeiras para Apoio aos Cidadãos) foi fundada em França, a 3 de Junho de 1998, em consonância com um editorial de Ignacio Ramonet publicado no jornal “Le Monde Diplomatique”, intitulado “Desarmar os mercados”. O texto referia a existência de uma tirania exercida pelos mercados sobre as populações mundiais e fazia apelo à criação de uma associação capaz de travar o processo de agravamento das desigualdades sociais, sugerindo já a designação de ATTAC (“Association pour la Taxe Tobin pour l'Aide aux Citoyens”). A proposta foi recebida com grande entusiasmo pela sociedade civil.
O objectivo da ATTAC seria de conseguir a implementação mundial da Taxa Tobin,
instrumento de regulação dos mercados cambiais. A designação “Taxa Tobin” advém
do seu próprio fundador, James Tobin, Prémio Nobel da Economia no ano de 1980, e
consistia na cobrança de uma taxa entre os 0,1% e os 0,5%, sobre todas as
transacções cambiais. Esta percentagem conduzia à obtenção de cerca de 100 mil
milhões de dólares anuais que seriam aplicados na luta contra as desigualdades
sociais, promoção de programas de educação e saúde em países pobres, eliminação
da fome, bem como na ajuda de um desenvolvimento sustentável à escala mundial.
Hoje em dia já não se pode resumir a acção da ATTAC à luta pela adopção da Taxa Tobin, mas a um conceito mais abrangente de combate contra a desigualdade e injustiça sociais.
Neste conjunto de preocupações integra-se a reflexão que levou às dezenas de manifestações convocadas sob o lema "O mundo não é uma mercadoria" em França, Bélgica, Suiça e Suécia, a propósito da Conferência da Organização Mundial do Comércio em Seattle.
Travar a especulação internacional, punir os paraísos fiscais, impedir a privatização dos sistemas se segurança social, promover a transparência dos investimentos são, então, objectivos da ATTAC, com intenção de devolver aos cidadãos os espaços perdidos pela democracia em benefício da esfera financeira.
A Plataforma Portuguesa da ATTAC foi criada em 1999 e o núcleo de Braga em Março de 2003.
A ATTAC pensa globalmente mas age localmente. Por isso a acção dos vários núcleos é imprescindível para a criação de bases que permitirão atingir os objectivos mencionados.
Em Braga, a ATTAC tem-se esforçado em acções pedagógicas e de informação, tentando mobilizar movimentos e associações cívicas para acções conjuntas, perseguindo a possibilidade de criar um fórum social distrital.
No actual contexto político, nacional e internacional, a ATTAC é uma urgência. A guerra, a imposição da alimentação transgénica, a fragilização das pequenas agriculturas, comércio e industria, a destruição de ecossistemas, a privatização de serviços e bens públicos, como a saúde, a educação e mais recentemente da água, são assuntos que pretendemos abordar e dentro do possível contribuir para alternativas que tenham sempre em conta o cidadão e não os interesses económicos.
Acreditamos que um outro mundo é possível!
“DO FUTEBOL À POLITICA PASSANDO PELO NACIONALISMO BACOCO”
O que se passa com este país, decorado a vermelho e verde. Nacionalismo? O orgulho nacional vendido, em promoção, nos hipermercados sobra a forma de kits a 1 euro? A Mac Donnald e a Coca Cola brindando os portugueses com os símbolos da nação?
Afinal o que é isso de nacionalismo? Pendurar bandeiras às janelas (muitas vezes ao contrário – serão do contra?) ou não ir votar nos nossos representantes no Parlamento Europeu.
De facto o Figo ou o Pauleta são melhores representantes do nosso país. Eles também “trabalham” no estrangeiro. Estarão lá para defender os nossos interesses?
Os portugueses desgastaram-se tanto a olhar para ecrãs panorâmicos e a consumir cerveja no Sábado que estiveram demasiado cansados para votar no dia seguinte.
Trocamos um golo por um voto e ficamos fora do jogo. São tão raras as oportunidades que o cidadão tem para intervir, que é lamentável os portugueses prescindirem também desse direito, elevando a abstenção a recordes que nenhuma selecção conseguiu fazer.
A suposta indiferença dos portugueses pelas eleições europeias, e o suposto desencanto em relação à classe politica, apenas favorece a perda de democracia.
Em vez de cartões vermelhos os portugueses passam cheques em branco e entram em prolongamento. Não se esqueçam que depois dos penaltis vem a morte súbita!
Coisas como o futebol e as telenovelas são muito cómodas para os nossos governantes. Anestesiar um país inteiro com um improvável título de campeão europeu e empenhar o nosso PIB numa dezena de estádios, quando já estávamos de tanga. Afinal quem lucra com tudo isto: um punhado de construtores, a máfia do futebol e alguns empresários da industria do turismo.
Para quê tanto alarido, afinal nós até já somos campeões: campeões do consumo de álcool, da sinistralidade nas estradas, dos índices de pobreza, da iliteracia, e mais algumas taças que estão na vitrina.
Por favor, a vida de um país não é um jogo.
Não acreditamos no patriotismo bacoco mas vamos tentar acreditar que um outro Portugal é possível!
“MORANGOS COM ARENQUES”
Na nossa primeira crónica, referimos que uma das preocupações da ATTAC é a qualidade alimentar, e num âmbito mais alargado a preservação ambiental e a qualidade de vida.
Neste contexto, o núcleo de Braga promoveu em Janeiro deste ano, um debate sobre a temática da alimentação transgénica, com a participação, entre outros, da Margarida Silva, Vice-Presidente da Quercus, que sendo uma referência nesta área, deixou bem claro os riscos que os Organismos Geneticamente Manipulados representam para a saúde pública e para o meio ambiente.
Os OGM’s são organismos – plantas ou animais – cujo código genético é alterado em laboratório, com consequências ainda por estudar, e obviamente imprevisíveis, mas com um único objectivo: aumentar o lucro das empresas detentoras das patentes desses novos organismos. Os resultados são couves fluorescentes, morangos com genes de peixe, milho com ADN de bactérias que produzem pesticida, e muitas outras aberrações.
É mais uma vez o homem a brincar ao aprendiz feiticeiro com a alquimia da natureza com os riscos que o passado nos demonstrou ser sempre desastrosos.
A introdução de OGM’s na alimentação humana ou animal, até à data, mais ou menos controlada na União Europeia, com base no princípio da precaução, esta agora comprometida pela decisão tomada a 19 de Maio pela Comissão Europeia de levantar a moratória imposta à comercialização de OGM’s.
Esta decisão permite a entrada de milho BT-11 para conservas e pipocas.
Apesar de Portugal e mais cinco países terem votado contra, não foi suficiente para travar o processo. Atraz do milho estão ainda mais 33 pedidos relativos à comercialização ou cultivo de OGM’s que vão ser objectos de apreciação.
Ao contrário do que é habitual a União Europeia não valorizou o principio da precaução, aplicado quando a introdução de um produto no mercado pode ter repercussões perigosas a nível da saúde ou do ambiente.
Quanto a nós, sobrevalorizou interesses económicos, pendentes de queixas na OMC pelos Estados Unidos, Canada e Austrália contra a moratória, acusando a União Europeia de proteccionismo.
O interesse destes países em comercializar OGM’s abre um mercado de 500 milhões de consumidores porque atrás do milho virão outros produtos, portanto é urgente aderir às campanhas em curso para repor a moratório, exigir a proibição de cultivo de OGMs, exigir a rotulagem de produtos contendo OGM’s, e boicotar a compra desses produtos.
Pensem nisso quando estiverem na sala de cinema a comer pipocas, porque muito provavelmente em breve estarão a consumir também genes de uma bactéria que produz insecticida.
Porque o mundo não é uma mercadoria, acreditamos que um outro mundo é possível!
"QUANTOS MINUTOS DE SILÊNCIO SERIAM PRECISOS…"
Todas as vidas perdidas são de lamentar, qualquer que seja a sua raça, idade, sexo ou religião.
Os recentes atentados em Londres vitimaram pelo menos 55 pessoas, nos dias seguintes morreram à volta de 70 iraquianos também vítimas de um atentado bombista, a maioria eram crianças.
No Paquistão morreram centenas num desastre de comboio devido às más condições das linhas ferroviárias.
Na China, morreram dezenas de mineiros devido à falta de condições de trabalho.
Na mesma China morreram milhares devido às cheias.
Num país Africano, daqueles que a maioria dos portugueses nem sabe que existe, foram chacinadas famílias inteiras numa aldeia.
Você lembra-se destes últimos acontecimentos?
Viu ou ouviu alguma coisa nos média?
Não?
Também não é de admirar.
Este tipo de notícias passa geralmente em rodapé dos telejornais enquanto estão a ser exibidas as informações desportivas.
Não contabilizamos os milhares que morrem diariamente vítimas da fome, da doença ou simplesmente pela falta dos mais elementares cuidados ….
Três minutos de silêncio pela morte por 5 dezenas de ocidentais contra o silêncio absoluto pela morte dos outros.
Eis a aritmética do valor de uma vida, é tudo uma questão de cor de pele ou de etnia.
A nível da notícia a vida de um ocidental vale muito mais do que a vida de milhares dos “outros”.
As pessoas já se habituaram a ver morrer africanos, asiáticos ou sul-americanos.
Grande parte da responsabilidade recai sobre os meios de informação que sempre destacaram as “pequenas desgraças caseiras” em relação a qualquer calamidade que acontecem nos países ditos do sul.
Toda a gente se lembra desta ou daquela criancinha ocidental raptada que foi cabeçalho dos jornais mas muitos não sabem que diariamente são roubadas às suas famílias crianças para serem soldados à força, para serem obrigadas a se prostituírem ou então para lhes retirarem os órgãos que serão vendidos a clínicas no ocidente.
O fosso Norte-Sul não é apenas económico, existe também nas nossas cabeças, fomos habituados a esta aritmética: a vida não tem o mesmo valor consoante a sua localização geográfica.
Não é este tipo de mundo que queremos e acreditámos que um outro mundo é possível.
A mudança deve começar nas nossas casas, nas nossas mentalidades, na forma como educámos os nossos filhos, como eles e nós olhamos para o mundo, um mundo de todos e de todas.
Nos anos setenta, na Itália, em consequência das acções das Brigadas Vermelhas, o governo conseguiu decapitar toda a esquerda e a maior parte da actividade sindical. Uma das vítimas dessa caça às bruxas foi António Negri, o autor do livro “O Império”, que esteve preso 25 anos e só muito recentemente foi retirado de prisão por ter sido eleito deputado da assembleia da república italiana.
É sabido que o fantasma do terrorismo sempre foi usado pelos governos para conseguir controlos menos democráticos sobre todos os cidadãos. Justificando muitas vezes o injustificável.
Os recentes ataques bombistas em Londres, que coincidiram com a reunião do G8 na Escócia, vieram trazer mais uma vez esse fantasma aos títulos de abertura dos noticiários e dos jornais.
Pela primeira vez os oito países mais ricos lembraram-se de pôr a hipótese do perdão da divida dos países mais pobres, que seria com certeza uma mera operação de lavagem de consciência ou então uma urgência para alargar mercados.
Pela primeira vez a segurança e o terrorismo não fazia parte da agenda do G8.
Ironicamente os atentados vieram trazer uma reviravolta nas prioridades. Depressa se esqueceram os países pobres, onde se morre por falta de vacinas, água ou alimento: 55 mortos valeram mais do que milhões.
Paralelamente a isto assistimos à intenção de aplicar um conjunto de medidas tais como acesso aos registos das chamadas telefónicas, correio electrónico e mensagens dos telemóveis.
Soubemos que em Londres um transeunte é filmado umas 200 vezes por dia pela rede de câmaras espalhadas pelas ruas, estações de metro e edifícios. Mesmo assim os atentados não foram evitados.
A histeria e o medo do terrorismo espalhado pelos governos pode bem levar à suspensão de direitos elementares, à liberdade de expressão e de opinião, à privacidade, à caça às bruxas como aconteceu em Itália.
Cuidado com o que dizem ou escrevem porque mais tarde ou mais cedo isso poderá ser usado para provar que você é um terrorista. Big Brother is watching you.
A ATTAC tem como uma das suas prioridades a luta contra o neo-liberalismo e a ditadura dos mercados, alertando para os ataques dos interesses económicos aos interesses do cidadão.
Depois dos debates sobre os OGM’s e sobre o fenómeno da obesidade infantil, a ATTAC-Braga organizou o debate “A Água a Saque” sobre a temática da privatização da exploração e da distribuição da água.
A nossa preocupação justifica-se pelo Projecto de Decreto-Lei que aprova a Lei Quadro da Água, que na nossa opinião vai abrir a porta ao saque por parte das entidades privadas de mais um serviço que deveria permanecer público: a exploração e distribuição da água. Alguns municípios, dos quais a Câmara Municipal de Braga, já se anteciparam, privatizando 49% da AGERE.
Será razoável passar para o sector privado um serviço vital para a sociedade?
Será que a exploração e a distribuição da água, nas mãos de empresas cujo principal objectivo é o lucro, vai trazer alguma mais valia para os consumidores?
Vejamos o caso de Braga:
A Câmara Municipal decidiu vender de 49 por cento do capital da Agere, a empresa municipal de água e saneamento, ao consórcio composto pela DST, ABB e BragaParques, três empresas bracarenses bem conhecidas ligadas à construção civil, por aproximadamente 26,5 milhões de euros.
O consórcio está assim automaticamente a adquirir também 49 por cento da participação da Agere na Braval, ou seja o Aterro Sanitário da Serra do Carvalho.
O negócio é tão lucrativo que a nova empresa agora designada por “Agere-Águas e Ambiente de Braga” prepara-se para comprar uma comparticipação nas “Águas do Ribatejo”. Isto demonstra uma estratégia de expansão e monopolista perigosa para os consumidores.
Por outro lado se o negócio da água é tão lucrativo porque é que este não fica na mão do estado? Num país onde o crescimento económico e o défice é o que é, porque é que os nossos governantes insistem em oferecer oportunidades destas ao sector privado.
Também recentemente, aqui perto em Famalicão, a Câmara Municipal decidiu vender a água aos utilizadores industriais 3 vezes mais barata que aos outros utilizadores. A razão invocada é baixar os custos de produção, mas quem vai pagar a factura é naturalmente o cidadão comum. Será que alguém acredita mesmo que o lucro acrescido destas empresas vai se traduzir pelo retorno em impostos?
A água é, e deve permanecer, um bem público.
A gestão deste valioso recurso não pode estar sujeito às políticas mercantilistas das empresas privadas.
O período de seca extrema que algumas zonas geográficas em Portugal estão a passar provam isso mesmo. Quanto poderá valer um litro de água com a especulação que o sector privado já nos habituou?
É sabido que a nível mundial a água será o ouro branco do século 21. Fazem-se guerras para controlar os cursos dos rios e o nosso governo néo-liberal oferece o domínio desse precioso bem que é a água a empresas privadas.
O Estado está cada vez mais desligado das suas responsabilidades como provedor de serviços básicos, limitando a sua acção à aplicação passageira de politicas generalistas, ou seja, mero administrador.
Desvinculou-se da tradicional função de gestor de um país e dos seus recursos, passando a ser um mero produtor de leis, decretos e ofícios.
Todas as suas obrigações de administração dos serviços públicos, essenciais ao bom funcionamento do país, estão a ser vendidas ao desbarato a grupos financeiros privados, precisamente aqueles que apoiam as suas politicas e que acabam também por ser aqueles que desgovernam o país nos bastidores.
Desde a saúde até à água, passando pelo tratamento do lixo, pelas redes de telecomunicações, electricidade, gás, das auto-estradas, etc. Todos estes serviços são tratados como mercadorias.
Este estado das coisas representa obviamente um risco para o cidadão, entregando às leis do mercado bens e serviços essenciais para todos.
Mas como chegamos nós a este ponto? Como conseguiram os órgãos governamentais desvincularem-se das obrigações inerentes às funções de um estado democrático?
O método mais flagrante foi deixar os serviços públicos à deriva, e construir uma reputação de ineficácia desses serviços na sociedade, muitas vezes passando a imagem de laxismo dos próprios funcionários públicos. Os serviços administrados pelo estado são lentos, onerosos e burocratas, há que passar para o privado, para gente dinâmica e empreendedora. E portanto essa passagem era vista pelo cidadão comum como um progresso.
Mas até que ponto, essa ineficácia, não era conveniente, ficando assim a porta aberta para as privatizações?
Por um lado, o estado descarta-se das suas responsabilidades, por outro entrega de mão beijada negócios e serviços essenciais, com mercado garantido.
Muitos dos que adquirem essas empresas públicas estão directa ou indirectamente ligados aos governantes. Basta ver o caso da AGERE.
Até o ar que respiramos está sujeito a quotas de mercado… Portugal ultrapassa os limites de emissão de gases causadores do efeito de estufa, impostos pelo protocolo de Quioto, e para compensar, compra o direito de excedentes a países menos poluidores… como se isso resolvesse o problema. Não se esqueçam que os grandes poluidores são os industriais e quem paga somos nós…
Desde que o Durão Barroso, antes de fugir para Bruxelas, disse que o país estava de tanga, os nossos governantes, os média, os patrões, repetem incessantemente que Portugal está em crise.
Este estado justificou o congelamento dos salários, os despedimentos em massa, o fecho de fábricas, a deslocalização de outras, a suspensão da subida de escalões na função pública e outras tantas medidas.
Após 4 anos de crise, continua a não se ver luz ao fundo do túnel.
No entanto, as empresas portuguesas cotadas na Bolsa no PSI 20 aumentaram os resultados em 48,5 %, o que representa 900 milhões de euros! Essas empresas são, por exemplo, a PT, a SONAE, a EDP, os bancos.
A GALP já registou 333 milhões de euros de lucro, 5 vezes mais do que o ano passado. Como vêem a crise petrolífera só afecta os consumidores.
O BCP, de Jardim Gonçalves, bateu o seu record de lucros, os da SONAE subiram 135% e o BPI, até Março, tinha aumentado os seus em 55%.
Em Julho deste ano, precisamente o presidente do BPI defendia na televisão que, para resolver os problemas económicos e ultrapassar a crise, era necessário “diminuir os salários e aumentar os impostos”.
Face aos resultados registados pelas maiores empresas portuguesas não percebemos, afinal, quais são as dificuldades que estas atravessam.
Como é possível, gestores de empresas com tamanhos lucros, falarem de crise e terem o descaramento de aconselhar a redução de salários e o aumento dos impostos!
Aparentemente há dois países – o que sofre a crise e tem que a pagar e o que lucra com ela.
Como podem os governantes pedir mais esforços aos trabalhadores quando os ricos, ficam ainda mais ricos? Onde está a moral disto tudo?
Há poucas semanas o acordo do governo com os sindicatos ficou-se por um aumento médio dos salários de 30 cêntimos por dia. Para uma empresa com 100 empregados isso representa um acréscimo de 30 euros diários, o custo de uma refeição ligeira para o empresário. Mesmo assim, o presidente da CIP, veio de imediato a público, vociferar que um tal aumento representa provavelmente a falência de um sem número de empresas!
Por favor, não brinquem connosco e parem de nos tapar os olhos com a bandeira da crise…
"MANUAL DE INSTRUÇÕES PRECISA-SE" - 24 Fevereiro 2006
Este país devia vir com manual de instruções…
A primeira seria: usar e preservar. Como não é respeitada, claro que a coisa não funciona.
Veja-se o exemplo da Segurança Social, orgulhosa de conseguir cobrar 600 milhões de euros aos empresários, simplesmente porque tiveram medo de continuar a não pagar as prestações obrigatórias em atraso… mas isto não devia ter sido feito à mais tempo? Afinal o normal não é pagar o que se deve?
E Vítor Constâncio? Caso sério este senhor! Se pensarem, só produz um relatório anual em vésperas de orçamento de estado. Tanta produtividade para quê? Para pedir contenção salarial aos patrões? Como se isso fosse necessário… Com certeza esquece-se do seu próprio salário, superior ao seu homólogo americano, com um valor anual de um quarto de milhão de euros. E do seu Conselho de Administração que só em ordenados custa um milhão e meio de euros aos contribuintes, e que ao fim de cinco relatórios, ou seja, cinco anos, tem direito à reforma por inteiro. E já agora, a propósito, como é que os nossos políticos têm a lata de aumentar a idade da reforma quando eles ao fim de dois mandatos a conquistam por inteiro?
Entretanto, encerrou-se com grande pompa a comissão contra a seca de 2005, que ninguém sabe exactamente o que fez, e já se prevê criar um nova para 2006, há que criar postos de trabalho…
Dá-se aumentos de 3 cêntimos aos funcionários, porque os patrões garantem margens de lucro de milhões.
E ainda, este ultimo fim-de-semana, o povo elegeu, logo à primeira volta, um dos principais responsáveis da deplorável situação económica e social do país, como todos concordam, ele inclusive. Já agora o Cavaco é um dos felizes reformados do Banco de Portugal, recebendo mensalmente 2676 euros por serviços prestados como consultor.
Agora já percebemos para onde vão os nossos impostos. Não percebemos ainda é porque é que o governo tudo fez para não ter um presidente do seu partido… Não apoiando o candidato mais “credível” dos socialistas e avançando com um pacote de medidas nada populares, curiosamente logo durante a campanha, abriu a porta da presidência à direita. Pelo menos, Sócrates não pode ser acusado de medidas eleitoralistas, mas suspeitamos que, o que queria, era o Cavaco em Belém… vá-se lá saber porquê?
De facto este mundo está para quem não cumpre ou não tem princípios.
Cerca de 40 mil manifestantes de vários países Europeus desfilaram na passada terça-feira em Estrasburgo, exigindo a retirada da proposta de liberalização dos serviços públicos, proposta essa apresentada pelo antigo comissário europeu para o Mercado Interno FRITS BOLKESTEIN.
Esta directiva tem como objectivo - segundo o autor - o aumento do crescimento e da criação de empregos na união europeia , sem olhar a meios nem a efeitos. Apresenta um projecto que não só tem consequências terrivelmente negativas para os trabalhadores e cidadãos em geral (pondo em causa o próprio modelo social europeu a liberalização e consequente privatização) dos mais elementares serviços) como também nos torna cada vez mais desiguais. Esta directiva aprovada no parlamento europeu pelos grupos parlamentares do PPE e PSE em nosso entender, tem como principal objectivo o descarte total dos estados membros em relação a responsabilidades e obrigações sociais que têm com os cidadãos.
Felizmente foi retirado do documento o polémico princípio do «país de origem», principio este que permitia ás empresas deslocar os trabalhadores para outro país, com as condições salariais e de trabalho do país de origem. (está-se mesmo a ver uma empresa registada na ESLOVAQUIA mas a laborar na SUÉCIA). Mas não se animem, pois está a ser estudada outra formula mágica para lhe dar o mesmo sentido, embora apresentada com vestimenta diferente como bem sabem fazer os nossos amigos do neoliberalismo.
Acreditem, não vem bom augúrio!
Apenas nos resta apelar à atenção das pessoas e tentar contribuir para um despertar de consciências pois este, não é seguramente o melhor caminho para uma Europa justa e solidária tal como esperaríamos ou como nos querem fazer acreditar…
"DEPOIS DO IRAQUE VEM O IRÃO" - 10 Março 2006
Passados 3 anos de ocupação americana no Iraque, depois de dezenas de milhares de mortes civis, depois de milhares de soldados americanos e ingleses mortos, o Iraque continua longe de conhecer a tanta prometida paz.
A situação criada pela ocupação mata mais do que a própria ditadura do regime de Saddam Hussein.
Paralelamente a administração Bush, em nome de uma cruzada contra o terrorismo islâmico, comete ou promove um sem número de ilegalidades e crimes: prisões arbitrárias em Guantanamo, tortura e execuções no Iraque, raptos e sequestre em prisões clandestinas espalhadas pela Europa e pelo resto do Mundo, voos clandestinos afretados pela CIA para transportar pessoas detidas ilegalmente, etc.
Em Falloudja, e provavelmente em outros locais no Iraque, usaram armas químicas ilegais para aniquilar população civil.
Já passaram 3 anos, desta guerra de ocupação ilegal, condenada pela ONU e pela maioria dos países ocidentais – lamentavelmente o governo de Durão Barroso alinhou ao lado de Bush nas mentiras que supostamente justificavam a invasão – contestada pela população mundial, como o demonstraram as gigantescas manifestações em todas as grandes cidades da Europa e do Mundo.
Mas ainda se morre no Iraque, e já o governo norte-americano aponta a sua mira para o Irão: outro país islâmico que desafia a sua autoridade, e outro grande produtor de petróleo. Desta vez a justificação é a produção de armas nucleares… novamente a mesma bandeira, a do terror do Islão.
Mas agora até o governo iraniano dá uma ajuda: no seu orgulho admite estar a planear produzir energia nuclear, mas para finalidades civis. Claro que isto não basta para sossegar o ocidente.
Os iranianos querem ter energia nuclear, e depois? Portugal também quer!
A Índia e o Paquistão já tem à muito a bomba atómica, e este ultimo é um estado muçulmano.
Por outro lado, o facto de eventualmente produzirem urânio ou plutónio para fins não civis, não quer dizer que sejam um perigo para o ocidente, porque para lançar uma bomba não basta tê-la , é necessário mísseis intercontinentais ou bombardeiros de longo alcança, o que tecnologicamente é mais complicado do que produzir a bomba.
Então é para proteger os seus amigos israelitas?
Se o Irão quisesse atacar alguém com armas nucleares já teria comprado uma ou duas ogivas em saldo nos estados da ex-união soviética.
Mas se os americanos invadirem todos os países que possam ser ou vir a ser um perigo para o ocidente, onde vão parar? Na Coreia do Norte? Na China? Vão atacar e ocupar todos aqueles que representam uma ameaça ou simplesmente aqueles que tem petróleo?
O plano iraniano para produzir energia nuclear pode demorar anos ou nem se concretizar, pelo que não pode ser considerado um perigo, ao contrário dos Estados Unidos, que esses sim, já provaram ser um perigo para o planeta, com a certeza que tem armas de destruição maciça e foram os únicos na história da humanidade que já as usaram.
O núcleo de Braga da ATTAC vai organizar um debate sobre os 3 anos de ocupação do Iraque, com a projecção de um documentário sobre o cerco a Falloudja, na Velha-a-Branca, sexta feira 17 de Março pelas 22horas.
"UM PAÍS EM ESTADO DE CHOQUE" - 24 Março 2006
Já é sabido que os sucessivos governos deste país tem o mau hábito de por o carro à frente dos bois, e o Sócrates não foge infelizmente à tradição. Podemos mesmo dizer que Sócrates quer por um carro topo de gama à frente dos bois, só que não tem motor para andar e os bois tão cansados…
Todos nós ouvimos repetitivamente o nosso primeiro-ministro falar de banda larga, de contratos com a Microsoft, de centros de excelência ou mesmo de inovação, ou seja o famoso choque tecnológico.
Mas o único choque que se verifica é o estado em que o país se encontra: em estado de choque. A educação, e em particular os professores, estão em estado de choque com as reformas no ensino e na carreira, os restantes funcionários públicos estão na mesma. Os trabalhadores em geral estão em estado de choque com os sucessivos atropelos aos seus direitos adquiridos a tanto custo após 25 de Abril. As pequenas e médias empresas estão pela rua da amargura. Os portugueses, no seu todo, em estado de choque de tanto apertarem o cinto.
Os únicos que se safam são os políticos profissionais que se auto-aumentam descaradamente ou se auto-reformam com chorudas maquias. E claro não podemos esquecer os grandes grupos económicos, principalmente a banca, que vêem os seus lucros nos níveis mais altos de sempre.
Mas o que é isto de choque tecnológico? É distribuir computadores e bandas largas pelas escolas sem primeiro criar uma verdadeira estrutura de apoio e de formação? Milhares de computadores estão encostados porque avariam ou simplesmente as pessoas não sabem o que fazer com eles. Internet de banda larga para quê, se na sua maioria, os nossos alunos e muitos professores não sabem tirar partido desta tecnologia, porque para tal não foram formados.
Choque tecnológico e banda larga num país onde existe ainda tanta iliteracia, onde existem escolas sem aquecimento, onde as crianças têm de percorrer dezenas de quilómetros para chegar à escola, onde se espera anos para obter justiça, ou simplesmente para ser submetido a uma operação cirúrgica.
E se as coisas não vão a bem então vão a mal. Para obrigar as pessoas a usar a Internet, os nossos governantes tiveram mais uma ideia genial: temos que recorrer às novas tecnologias se queremos circular de carro, porque quem não tem computador e acesso à Internet não pode pagar o imposto de circulação.
Tá-se mesmo a ver os habitantes das aldeias de Trás-Os-Montes a pagar o imposto municipal de circulação através da Internet, ou será que vão todos deslocar-se ao Cyber-Café mais próximo para o fazer…
É evidente que quem vai ganhar com este novo “choque tecnológico” serão os solicitadores e outros abutres que vivem das “excelentes” ideias do nosso governo.
Já agora, se tem Internet, para além de poder pagar o imposto de circulação, também pode consultar o site do núcleo de Braga da ATTAC em bragatel.pt\attac.braga.